Comprar um carro usado não é algo difícil e reservado para especialistas. Mas alguns cuidados são importantes. Apesar de ser um processo comum, o mercado ainda convive com práticas que buscam valorizar artificialmente o veículo ou ocultar sinais de uso e desgaste.

Entre elas, a adulteração da quilometragem segue como um dos golpes mais recorrentes — e não se trata de algo restrito aos carros antigos com hodômetro analógico. Com os sistemas digitais, a fraude se tornou diferente, mas não deixou de existir.
A redução artificial da quilometragem faz o carro parecer mais conservado do que realmente é, impactando diretamente seu valor de mercado e mascarando necessidades futuras de manutenção. Para minimizar esse risco, o AutoShow reuniu orientações essenciais que ajudam o consumidor a identificar inconsistências antes de fechar negócio.

O primeiro passo é o laudo cautelar, documento com validade jurídica que reúne informações sobre procedência, histórico de proprietários, registros de sinistro e dados técnicos do veículo, incluindo a quilometragem registrada em vistorias anteriores. Ainda assim, é preciso cautela. Existem casos de laudos antigos, reutilizados ou até mesmo falsificados. A recomendação é que o comprador solicite o serviço por conta própria, em um centro de inspeção veicular de sua confiança, e não apenas aceite o documento apresentado pelo vendedor. Se houver resistência em realizar uma nova vistoria, o sinal de alerta deve ser imediato.

Outro ponto fundamental é o teste de rodagem. Um trajeto curto não revela o comportamento real do carro. O ideal é conduzir o veículo por pelo menos 20 minutos, passando por vias em diferentes condições, como ruas irregulares, avenidas e trechos de maior velocidade. Esse período permite identificar ruídos, vibrações, falhas no funcionamento do câmbio, luzes de advertência no painel e outros sinais compatíveis com desgaste elevado.

A análise do interior também ajuda a cruzar informações com a quilometragem indicada no painel. Volante excessivamente liso, manopla de câmbio desgastada, pedais com marcas acentuadas, bancos afundados e cintos de segurança com folga excessiva costumam indicar uso intenso. Por outro lado, atenção a componentes que parecem novos demais, como tapetes, borrachas e forrações recentemente substituídas, o que pode indicar tentativa de mascarar o estado real do carro.

Na parte externa, observe cuidadosamente a carroceria. Pintura recente, desalinhamento de peças, diferenças de tonalidade e marcas de reparos estruturais podem apontar histórico de batidas ou uso severo, incompatíveis com baixa quilometragem declarada.
Por fim, vale considerar um parâmetro básico de uso. Em média, um carro particular roda entre 10.000 e 15.000 km por ano. Veículos que pertenceram a frotas, locadoras ou empresas costumam rodar bem mais, enquanto carros utilizados por motoristas de aplicativo podem ultrapassar facilmente os 50.000 km anuais. Com isso em mente, um veículo com cerca de 10 anos de uso dificilmente terá rodado menos de 100.000 km sem uma justificativa muito clara. Cruzar esse cálculo com o histórico veicular e o estado geral do carro é essencial para evitar surpresas.