Um estudo da Cox Automotive acendeu um alerta no mercado automotivo ao indicar que carros novos podem perder até 63% do valor em apenas um ano no Reino Unido — um nível muito acima do padrão histórico da indústria. O levantamento mostra que a transformação acelerada do setor, impulsionada principalmente pela entrada de marcas chinesas, começa a alterar de forma estrutural a formação de preços.

No mercado britânico — que engloba Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte — a presença de fabricantes chinesas cresceu rapidamente. O cenário antes dominado por marcas tradicionais como Ford, Jaguar e Land Rover passou a dividir espaço com nomes como MG (sob controle da SAIC), BYD, XPeng, Leapmotor, Omoda, Jaecoo e Ora, ampliando a oferta e mudando o comportamento do consumidor.

Historicamente, a desvalorização de um carro zero-quilômetro no primeiro ano ficava entre 15% e 25%, variando conforme segmento e marca. O cenário atual, no entanto, indica uma aceleração desse processo, especialmente em mercados impactados por excesso de oferta e forte competição de preços.

Esse movimento está diretamente ligado à estratégia das montadoras chinesas, que adotam preços mais baixos para ganhar participação global. Com veículos mais acessíveis e alto nível de equipamentos, essas marcas pressionam concorrentes tradicionais a reduzir preços, afetando diretamente o valor de revenda.
Na prática, a dinâmica é imediata: quando o preço do carro novo cai, o seminovo perde valor em ritmo ainda mais acelerado. Em segmentos como SUVs eletrificados, já há casos de desvalorização expressiva em poucos anos, reflexo direto da disputa comercial e da rápida evolução tecnológica.
Outro fator relevante é a estratégia de volume. Em alguns mercados, há aumento de estoques e campanhas com descontos elevados, o que amplia a pressão sobre os preços e acelera a perda de valor dos veículos já vendidos.
O estudo também indica que o avanço das marcas chinesas vai além do preço competitivo. A combinação de tecnologia, eletrificação e custo-benefício tem atraído novos consumidores, especialmente os mais jovens, e forçado uma reconfiguração do mercado.
Esse cenário cria um efeito em cadeia: montadoras tradicionais respondem com reduções de preço, aumento de incentivos e renovação mais rápida de portfólio. O resultado é um ciclo de desvalorização mais intenso do que o observado na última década.
Ainda assim, a perda de valor não ocorre de forma uniforme. Fatores como volume de vendas, posicionamento de mercado e estratégia comercial influenciam diretamente o comportamento dos preços no mercado de usados.
Modelos com maior oferta tendem a desvalorizar mais rapidamente, enquanto veículos com menor disponibilidade ou alta demanda conseguem preservar melhor o valor. Em alguns casos, inclusive, modelos chineses podem manter preços mais estáveis ou até acima da tabela, dependendo da procura — indicando que o fenômeno é mais complexo do que apenas a origem do veículo.