A Citroën prepara o retorno de um dos modelos mais emblemáticos da indústria automotiva. Dentro do plano estratégico FaSTLAne 2030 da Stellantis, a marca francesa confirmou que trabalha em um novo carro elétrico compacto inspirado no espírito do histórico 2CV — um produto que pretende recuperar uma proposta que marcou a identidade da fabricante: mobilidade simples, acessível e de grande alcance popular.

Embora ainda não existam dados técnicos oficiais nem confirmação do nome comercial, informações divulgadas na Europa indicam que o projeto integra a futura família “E-Car”, plataforma destinada a veículos elétricos urbanos de menor custo prevista para estrear por volta de 2028.

A expectativa é posicionar o modelo abaixo da faixa de 20 mil euros, com versões próximas dos 15 mil euros. Na prática, a ideia é enfrentar o avanço dos elétricos compactos chineses e também recuperar consumidores europeus que ficaram distantes da eletrificação por causa do aumento de preços nos últimos anos.

O retorno de um símbolo que ajudou a motorizar a França

Falar em 2CV significa voltar a um dos capítulos mais importantes da história da Citroën. O projeto começou ainda antes da Segunda Guerra Mundial, mas foi oficialmente apresentado ao público em 1948, durante o Salão de Paris. O objetivo era direto: criar um carro extremamente simples, barato e capaz de colocar milhões de franceses sobre rodas.

A filosofia do modelo ficou famosa pela frase atribuída ao desenvolvimento do projeto: transportar quatro pessoas e uma cesta de ovos por uma estrada rural sem quebrar nenhum deles. Para isso, o carro apostava em baixo peso, suspensão de curso longo, manutenção simples e soluções de engenharia de baixo custo.

Ao longo dos anos, o 2CV recebeu evoluções importantes. Ganhou motores maiores, melhorias de acabamento, versões utilitárias e pequenas atualizações de conforto sem abandonar a proposta original. O desenho praticamente atravessou décadas sem mudanças profundas — algo raro na indústria.

Além da produção francesa, o 2CV também teve trajetória internacional. Na América do Sul, o modelo foi fabricado na Argentina entre o fim dos anos 1960 e o fim dos anos 1970, inicialmente com base mecânica do Ami 8 e adaptações para o mercado local. Já na Europa, conforme as exigências de segurança e emissões ficaram mais rigorosas, a produção foi sendo concentrada em outros países.

Os últimos exemplares deixaram as linhas de montagem em Mangualde, Portugal, em julho de 1990, encerrando uma trajetória superior a quatro décadas e mais de 5 milhões de unidades produzidas em todo o mundo. O carro acabou se tornando não apenas um produto comercial, mas um símbolo cultural francês.
Agora, quase quarenta anos depois, a Citroën tenta reinterpretar o mesmo conceito para a era elétrica.

Produção deverá acontecer na Itália
Diferentemente do modelo original, que nasceu na França, o novo elétrico inspirado no 2CV deverá ser fabricado em Pomigliano d’Arco, na Itália — unidade que hoje já concentra operações ligadas à Fiat e que será adaptada para receber futuros compactos eletrificados do grupo.
A estratégia da Stellantis passa por reduzir complexidade, peso e custos industriais para criar veículos urbanos mais acessíveis.
Internamente, o projeto é comparado ao conceito japonês dos kei cars: automóveis menores, leves e suficientes para deslocamentos urbanos, evitando o caminho seguido por parte dos elétricos atuais, que cresceram em tamanho, potência e preço.
Fiat também terá modelo dentro da mesma estratégia

O plano da Stellantis não ficará restrito à Citroën. Fontes europeias indicam que a Fiat também prepara um compacto elétrico abaixo do Grande Panda utilizando conceitos semelhantes.
A expectativa é que os futuros modelos compartilhem arquitetura simplificada para competir diretamente com carros como o sucessor do Renault Twingo E-Tech e com a nova geração de compactos chineses de entrada.

Pelos primeiros sinais da Stellantis, o futuro 2CV não deverá reproduzir o desenho clássico em estilo retrô. Em vez disso, a proposta será reinterpretar os pilares que transformaram o original em referência: simplicidade, praticidade, conforto e custo reduzido.