A pressão exercida pelas montadoras chinesas no mercado brasileiro está levando as fabricantes tradicionais a reverem suas estratégias. No caso da Volkswagen, a resposta pode unir duas frentes distintas: o resgate da tradição dos carros movidos a álcool e o aproveitamento de tecnologias desenvolvidas em parceria com empresas chinesas para reduzir custos e acelerar o lançamento de novos produtos.

Durante o Anfavea Visions, realizado na última semana, Ciro Possobom, presidente da Volkswagen do Brasil, falou sobre essa estratégia. O executivo reconheceu que a chegada de novos concorrentes asiáticos, favorecidos pela redução das alíquotas de importação, pelo câmbio e pelos modelos de montagem CKD e SKD, vem aumentando a pressão sobre os preços dos automóveis.

“Estamos vendo uma grande entrada de carros no Brasil que está pressionando os preços para baixo. Mas a indústria precisa de tempo para se adaptar. Não é possível trocar uma plataforma ou uma linha de produção da noite para o dia”, afirmou.

Apesar do cenário mais competitivo, a Volkswagen descarta participar de uma guerra de preços. Segundo Possobom, em determinadas situações, importar veículos pode ser mais vantajoso economicamente do que produzir localmente.

Enquanto marcas como BYD, GWM, Geely e GAC ampliam sua participação com veículos híbridos e elétricos, a Volkswagen aposta em duas vantagens: a experiência acumulada com motores flex e a possibilidade de utilizar soluções desenvolvidas na China.
Volkswagen estuda modelos desenvolvidos na China

Além da chegada do SUV elétrico ID.4, importado da Europa, a fabricante admite que poderá recorrer a produtos e tecnologias desenvolvidos em parceria com suas operações chinesas.

“Eu tenho que pegar o line-up disponível do grupo e ver como adaptá-lo para a realidade do Brasil. Não existe nenhum bloqueio em relação a isso. Temos várias parcerias na China e estamos analisando o que pode ser adequado ao consumidor brasileiro”, explicou Possobom.
Questionado sobre os veículos elétricos de alcance estendido desenvolvidos em parceria com a Xpeng, o executivo afirmou que a empresa acompanha de perto essa transformação da indústria.
A Volkswagen anunciou recentemente uma série de lançamentos para o mercado chinês e mantém acordos de cooperação com empresas como Xpeng, SAIC e FAW, abrangendo plataformas, softwares e arquiteturas eletrônicas.

Etanol pode voltar a ganhar protagonismo
Embora a eletrificação esteja avançando, a Volkswagen vê no etanol uma vantagem competitiva exclusiva do Brasil. O programa Mover, criado pelo governo federal, oferece benefícios tributários para veículos com menores emissões e abre espaço para o retorno de modelos movidos exclusivamente a etanol.
“Oportunidade existe. Com as regras do Mover, o etanol tem uma vantagem fiscal importante e isso pode motivar o consumidor a buscar uma solução desse tipo. E a Volkswagen é muito forte nisso”, afirmou Possobom.
A história da marca com o combustível é antiga. Nos anos 1980, quando o Proálcool impulsionou a produção nacional, a Volkswagen foi uma das fabricantes que mais investiram nessa tecnologia. Modelos como Gol, Voyage, Parati, Saveiro, Santana e até o Fusca tiveram versões movidas exclusivamente a álcool e se tornaram presença comum nas ruas brasileiras.

O Gol a álcool, em especial, foi um dos carros mais vendidos do país e ajudou a consolidar a aceitação do combustível entre os consumidores. O Santana também ganhou fama pelo desempenho e pelo funcionamento mais suave quando abastecido com álcool.
Com a chegada dos híbridos flex, a combinação entre eletrificação e biocombustíveis pode representar uma nova oportunidade para a fabricante. O conceito já vem sendo seguido por concorrentes como Toyota, GWM e BYD, enquanto a Chevrolet voltou a apostar em versões movidas apenas a etanol em alguns compactos para aproveitar os incentivos previstos pelo programa Mover.
Embora ainda não existam confirmações sobre quais produtos desenvolvidos na China poderão chegar à América do Sul, a aproximação entre a Volkswagen e seus parceiros asiáticos abre caminho para o aproveitamento de plataformas, componentes, softwares e até modelos completos adaptados às necessidades do mercado brasileiro.