Encontrar um carro com mais de 150 mil quilômetros rodados é cada vez mais comum no mercado de usados. A quilometragem elevada ainda faz muita gente torcer o nariz, mas, na prática, ela não é sinônimo de problema. Um veículo bem cuidado pode ser muito mais confiável do que outro com poucos quilômetros, mas que passou anos sem manutenção adequada.

Em feirões, lojas e anúncios na internet, há boas oportunidades para quem tem orçamento mais apertado. O segredo é olhar além do número mostrado no hodômetro e avaliar o estado geral do veículo.
Antes de tudo, vale lembrar que um carro usado dificilmente será perfeito. É natural encontrar pequenos retoques de pintura, marcas de uso e até algum histórico de reparos. O importante é entender se essas intervenções foram feitas corretamente e se a manutenção sempre esteve em dia.

No Brasil, um automóvel roda, em média, entre 10 mil e 12 mil quilômetros por ano. Isso significa que um carro com cerca de 12 ou 13 anos de uso já deve ter ultrapassado a marca dos 150 mil quilômetros. Ou seja, essa quilometragem pode ser apenas consequência do tempo de utilização, e não um indicativo de desgaste excessivo.

Atenção à suspensão
Um dos primeiros itens que merece atenção é a suspensão. Com essa quilometragem, componentes como amortecedores, buchas, pivôs, bieletas e terminais de direção podem já ter sido substituídos ou estar próximos do fim da vida útil.

Durante o test-drive, passe por ruas com piso irregular e observe se há ruídos, batidas ou rangidos. Também verifique se o carro mantém a trajetória em linha reta ou se tende a puxar para um dos lados, o que pode indicar problemas de alinhamento, suspensão ou até danos estruturais.

Os pneus contam a história do carro
Os pneus também revelam muito sobre o histórico do veículo. Um automóvel com mais de 150 mil quilômetros normalmente já está no terceiro ou quarto jogo de pneus.
Mais importante do que verificar a profundidade dos sulcos é observar se o desgaste é uniforme. Pneus gastos apenas de um lado podem indicar desalinhamento, problemas na suspensão ou até deformações estruturais.

Motor exige atenção especial
A parte mecânica merece uma análise cuidadosa. Sempre que possível, peça o histórico de revisões e confirme se as trocas de óleo e filtros foram realizadas nos intervalos recomendados pelo fabricante.
Mesmo que o antigo proprietário afirme que a manutenção está em dia, é recomendável trocar óleo e filtros logo após a compra para iniciar um novo ciclo de manutenção.

Também fique atento ao funcionamento do motor. Dificuldade na partida, fumaça excessiva pelo escapamento, vazamentos de óleo, ruídos metálicos ou marcha lenta irregular podem indicar problemas mais caros.
Interior também revela como o carro foi tratado
O estado da cabine costuma mostrar como o veículo foi utilizado ao longo dos anos. Bancos muito desgastados, volante excessivamente liso, pedais gastos e acabamentos soltos podem indicar uso intenso ou falta de cuidados.

Aproveite para testar todos os equipamentos, como ar-condicionado, central multimídia, vidros elétricos, travas, retrovisores, iluminação e painel de instrumentos. Em carros mais antigos, pequenos defeitos elétricos são relativamente comuns.

Avalie a lataria com calma
Após muitos anos de uso, é normal que o carro tenha recebido algum reparo de pintura ou troca de peças externas. Isso, por si só, não significa que o veículo sofreu um acidente grave.
O importante é verificar a qualidade dos reparos. Diferenças de tonalidade na pintura, desalinhamento entre portas, capô e para-lamas ou excesso de massa plástica podem indicar intervenções mais profundas.

O laudo cautelar faz diferença
Antes de fechar negócio, investir em um laudo cautelar é uma das decisões mais importantes. O procedimento verifica histórico de sinistros, documentação, autenticidade dos sinais identificadores, estrutura do veículo e possíveis restrições.
Também vale a pena realizar uma inspeção mecânica preventiva para avaliar itens como alternador, bateria, bomba-d’água, radiador, sistema de arrefecimento e transmissão. Nos modelos com câmbio automático, essa verificação é ainda mais importante, já que eventuais reparos costumam ter custo elevado.
Afinal, vale a pena?
Sim, desde que a compra seja feita com critério. Um carro com mais de 150 mil quilômetros pode oferecer excelente custo-benefício quando possui manutenção comprovada e está em bom estado de conservação.
No fim das contas, o histórico de cuidados pesa muito mais do que a quilometragem registrada no painel. Uma avaliação completa antes da compra reduz o risco de surpresas e pode garantir muitos quilômetros de uso sem dor de cabeça.